ENTREVISTA_ Conversamos com Mila Maluhy, fotógrafa e ativista ambiental Ela falou sobre a missão de fotografar um show, como funciona o Pit de fotógrafos e a evolução da profissão com o avanço da tecnologia

Mila Maluhy no palco do Accept, durante o Monsters of Rock Brasil 2015, na Arena Anhembi. Foto: © Ale Frata

ENTREVISTA_ O Marofa Music foi conversar com a fotógrafa, bióloga e ativista ambiental, Mila Maluhy, que há três décadas fotografa shows e espetáculos, principalmente na cidade de São Paulo. Em todo esse tempo, difícil imaginar algum artista que não esteve sob a mira das suas lentes, mas aqui ela nos contou quem ficou faltando, momentos marcantes e curiosidades.
É comum ver a Mila trabalhando nos grandes shows e festivais que acontecem na cidade, e com frequência artistas e celebridades conversam com ela antes, durante e depois das apresentações.
No bate papo, ela conta como tudo começou na época em que trabalhava na Band FM, além de histórias inusitadas como a tentativa frustrada de fotografar Amy Winehouse, e também sobre seu fiel escudeiro, que não perde um show.
Se você sonha em trabalhar com fotografia de shows, ela deixa um recado pra você.
Com vocês, Mila Maluhy.

Aerosmith, 2010 - Foto: © Mila Maluhy
Aerosmith, 2010 – Foto: © Mila Maluhy

ENTREVISTA

Apresente-se ao leitor do Marofa Music_Sou fotógrafa há uns 30 anos, trabalhando principalmente na cobertura de shows e espetáculos. Amo o que eu faço. Independente de estar ou não trabalhando para algum veículo, sempre que posso e consigo credenciamento, registro a cena musical de São Paulo. É como um registro histórico.

Quando foi tomada a decisão de seguir a fotografia de shows profissionalmente e como foi o apoio dos familiares?_Não tomei essa decisão. Ela aconteceu naturalmente. Trabalhei durante uns cinco anos na Band FM, no começo dos anos 1980. A rádio era totalmente rock e alternativa. Com isso comecei ir aos shows e festas das gravadoras. Tinha feito um curso básico de fotografia, comprado uma câmera numa viagem e fotografava como hobby. Quando sai da rádio em 1985, já tinha me formado em Biologia e não tinha ideia do que fazer. Foi quando começou a aparecer os trabalhos como fotógrafa para as gravadoras. Minha “madrinha” nessa história foi a Monica Castilho, que trabalhava em uma gravadora e me deu a maior força pra isso. A família nem apoiou nem criticou. Acho que meu pai preferia que tivesse seguido outra coisa, mas deve ter ficado contente em ver que tudo que ele gastou comigo em equipamentos, cursos, filmes e revelações tinha servido pra alguma coisa. rsrs

Tem preferência por fotografar algum estilo de música/show/espetáculo?_Sou bem eclética em relação a estilos, mas prefiro rock, black music e mpb. Com raras excessões, me divirto em qualquer show. Também gosto muito de fotografar teatro, musicais e dança.

Algum tipo de apresentação nesse meio não te agrada, que você não goste de fotografar ou não tenha interesse?_Sem preconceitos!

Um momento muito marcante em sua carreira e um que faltou_Ainda não trabalhava como fotógrafa profissionalmente, mas fotografei o primeiro Rock n Rio. Foi realmente uma experiencia única. Acho que minha maior frustação é não ter fotografado o Led Zeppelin, minha banda preferida. Mas fotografei Robert Plant e Jimmy Page, pra consolar. Gostaria de ter fotos de ilustres brasileiros, como Elis Regina, Vinicius de Moraes e Luis Gonzaga, mas cheguei tarde pra isso.

Fale um pouco do show que Amy Winehouse fez em São Paulo, em janeiro de 2011. O que aconteceu?_Tem coisas que não deveriam ser publicadas. Kkkk. Mas ok, vou contar. Não tinha conseguido credenciamento para a cobertura do show da Amy, como muitas vezes acontece quando se tem dezenas de solicitações e a gente não está trabalhando por algum grande veículo. Sabia que era uma oportunidade única e queria fotografar de qualquer jeito. Consegui um convite e através de pessoas conhecidas e consegui chegar na house mix. Sabia que os fotografos credenciados iriam fazer as fotos daquele local. Estava na parte de baixo, junto com os técnicos de som, luz e vídeo, quando vi o pessoal da assessoria chegando com os fotógrafos. Pensei, eles não podem me ver aqui. Escalei a estrutura  para chegar no parte de cima, onde ficam os canhões de luz. Um segurança me viu e me iluminou com uma lanterna. O público vendo a cena, começou a gritar. Chamou a atenção de todos. Cheguei na parte de cima e passaram um rádio para o operador de canhão, pra eu descer. Como não desci na hora, subiu alguém, não sei se da produção ou técnica e disse “o gringo falou que se vc não descer o show não começa”. Não tive muita escolha. Desci e já tinham dois seguranças “muito gentis” que me acompanharam pra fora do Anhembi. Claro que antes disso tive que encarar meus amigos da assessoria me fulminando. Queimei meu filme por um bom tempo. Posso admitir também, que voltei pra dentro na hora do bis, quando abriram os portões, mas não consegui fotografar. Assim, a Amy entrou pro rol dos artistas que não tenho fotos, mas ficou pra história.

Dizem que você tem um companheiro inseparável que te acompanha nos shows_Tenho sim. Um banquinho verde, que quase não chama a atenção. rsrs.  Ele é leve, dobrável e como não sou das pessoas mais altas, vinte centímetros a mais fazem a diferença quando se está fotografando no meio do público. Depois que comecei a usá-lo não me imagino em um show, em que a plateia esteja em pé, sem ele, ainda mais atualmente que as pessoas passam o show com as mãos para cima fotografando com celular.

Como é o clima no Pit de Fotógrafos? Pinta muita ansiedade, frio na barriga ou você já tira isso de letra? Conte algumas situações inusitadas que você viveu dentro do pit_No Pit, cada show é uma  coisa. Alguns bem sossegados, outros sem a mínima condição de trabalho. As vezes muito mais fotógrafos do que caberia, outras tendo que dividir espaço com seguranças e até convidados da produção e banda. Independente do artista, sempre fico um pouco ansiosa, até ver as condições que teremos, tanto de espaço, como iluminação e tantas outras coisas que interferem numa boa foto, como caixas de retorno muito altas e pedestais em excesso. Várias vezes fico irritada com a falta de respeito e consideração de alguns fotógrafos. Uns por serem novos e não perceberem e outros que são folgados mesmo e acham que só eles precisam fazer a melhor foto. Entram na frente, sem nenhuma cerimônia. Respeito ao máximo os que estão ao meu lado, tomando cuidado para não entrar na frente de uma foto. Claro, que as vezes isso acontece, mas é preciso ter cuidado.

Por acompanhar a maioria dos artistas nacionais desde o começo da carreira deles, muitas vezes ”ganho” fotos especialmente posadas, cumprimentos ou até algumas palavras de agradecimento durante o show. Esse tipo de coisa que mostra que estamos fazendo a coisa do jeito certo…

O pit também é bom pra encontrar os amigos e aproveitar pra conversar quando o show atrasa.

Seu trabalho já foi visto em algumas exposições, como na Galeria do Rock e a Percussion Show na Bienal do Parque Ibirapuera. Fale sobre sua participação em expos e se tem alguma que está por vir ou planejada_Participei de algumas exposições coletivas, como Bateras em Fúria (Centro Cultural), Gil 20 Anos Luz (Anhembi), São Paulo – 450 Pontos de Vista (Caixa Cultural), Dia do Rock , na A Universal (distribuidora de CDs e DVDs) e na Galeria do Rock, exposição na qual as fotos acabaram ficando permanentes. A de bateras e percussionistas foi uma individual, Percussion Show, o mesmo nome do evento na Bienal, em 2015.

Tenho alguns projetos em andamento, a procura de patrocinadores.

Você é madrinha do fotógrafo MRossi na fotografia. Conte como se sente, vendo seu afilhado como um dos maiores fotógrafos de shows do Brasil_O Rossi carinhosamente me chama de “madrinha”, porque a primeira vez que ele entrou num pit de fotografos foi comigo. Ele me  pediu e entrou com meu equipamento. Naquela época era mais fácil. Não fiz nada mais do que isso. Tenho muito orgulho de tê-lo como grande amigo, pois além de ser um super fotógrafo é uma pessoa que eu tenho grande consideração. Além do caráter, ele é da turma que se preocupa e cuida do planeta!

Pra finalizar, deixe um recado para quem gosta de fotografia de shows, pretende seguir essa carreira e também para os leitores do Marofa Music_O mercado fotográfico mudou muito nesses últimos anos. O digital de certa forma facilitou o acesso à fotografia. Sempre digo que agora todo mundo é fotografo. Ou pelo menos brinca disso, se não for com câmera é com celular. Dessa forma, o mercado ficou muito mais competitivo.

Então, pra quem quiser seguir carreira, além de ter um olhar diferenciado, deve estar sempre se atualizando com as facilidades que a tecnologia nos proporciona. E também deve saber que o custo disso não é baixo. Por isso não se deve vender o trabalho a preço de banana ou mesmo de graça, para poder estar na frente de um palco fotografando. E para qualquer coisa… ética acima de tudo.

PINGUE-PONGUE

Banda Gringa_Led Zeppelin
Banda Nacional_Barão, Titãs, Paralamas, Capital
Palco_Palace
Show_Troca de energia
Instrumento_Bateria
Disco_Led Zeppelin- The song remains the same
Bebida_Sucos
Comida_Vegetariana
Sonho_Várias viagens que ainda não fiz
O que não pode faltar_Respeito

Por Ale Frata

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